sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O Sexo e as imagens na criança

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Ilustrações do Livro infantil alemão

"Tudo estava escuro no meu coração,

nada se via, nada se ouvia,
como se uma venda preta
me vendasse os olhos.
Quis a luz, luz para sempre.
Contei o que sentia para uma poetisa da Europa.
E ela me disse: no meu país, quase sempre frio,
muitas pessoas
ou ficam loucas, ou se suicidam,
devido à luz demasiado prolongada"
(Noite Branca, Yao Fen)

Tem-se uma imagem, num livro infantil, usado nas escolas da Alemanha. Um casal, em posição de coito, e uma espécie de “raio-x”, que mostra o momento em que o espermatozoide encontra o enorme óvulo, no útero. O casal, olhos nos olhos, parece desfrutar um prazer quase inocente. E por que não o seria? [...]

A imagem correu o mundo, e várias foram as reações. Fala-se em trauma infantil, pais que não permitiriam aos filhos frequentar uma escola com tão aberrativa metodologia, relatos de crianças que, expostas a cenas de sexo, choravam.

Uma evocação à cena primária de Freud, onde a criança instintivamente crê que seus pais estão a se degladiar. O que, evidentemente, parece não interessar aos educadores teutônicos, que não titubearam em substituir a surreal cegonha pelo casal in Love.

UMA IMAGEM, UM AFETO
Uma imagem é um corpo. Logo, produz, no encontro com outro corpo – a percepção – um afeto, que não se reduz ao registro da estrutura da imagem, mas que envolve todo um processo cognitivo. Ao entrar em contato com a imagem, a criança, cujo aparelho cognitivo e a faculdade inteligível ainda estão em desenvolvimento, engendra um afeto de acordo com o seu modo de ser, aquilo que lhe cerca, suas outras imagens, ideias, afecções.

Segundo o filósofo francês Henri Bergson, para produzir-se uma nova imagem, é preciso lutar contra as imagens que já existem (memória), e que inundam a existência, numa luta pela permanência (utilidade). Salvo um exercício de atenção e principalmente de volição, essa nova imagem não chega a se formar. Não se vê a imagem como tal, mas adéqua-se os estímulos recebidos àqueles já existentes. Uma árvore é uma árvore, mas quantas árvores um homem adulto já viu (se é que algum dia ele viu uma árvore)?
Assim, as imagens, que não são nem a coisa em si e nem a sua representação, mas algo a meio caminho, estão impregnadas, saturadas. Principalmente numa sociedade que as banaliza.

IMAGEM-MUNDO, IMAGEM-MORAL
De que “matéria” é formada a consciência de uma criança que chora ao ver uma cena de envolvimento sexual de dois corpos de adultos? Imaginemos um exemplo: coloca-se uma fotografia de um homem, com a mão espaldada próximo ao rosto de uma mulher, um olhando para o outro. Quem dirá que trata-se de um tapa? Quem dirá que se trata de um carinho por vir? Percepção e moral aqui se misturam.
Um choro supõe sempre uma situação de insegurança ou a certeza de que algo de ruim está a acontecer. Ainda que não se entenda o que é esse algo.

Em uma sociedade marcada pela violentação do corpo, e principalmente, do aparelho cognitivo, pela sucessão pasteurizada das imagens, pela parafernália teletecnológica que não auxilia no desenvolvimento da imagin-ação, pela redução perceptiva de uma tela em duas dimensões, computador, tevê e celular, que faz definhar a noção de profundidade, pelos livros infantilóides repletos de imagens e que não deixam sequer uma nesga para que a criança crie as suas próprias, pelo entretenimento que induz ao embotamento afetivo e à padronização das reações emocionais, como afirma o dromólogo Paul Virilio, pela atrofia do aparelho cognitivo pela cascata incessante de imagens, que não permite o uso da faculdade do discernimento, é praticamente epidêmico que crianças chorem ao ver uma imagem maciçamente associada ao proibido, ao imoral, e pior. Remetendo ao desconhecimento do seu próprio corpo.

Pois é somente carregando como marca a violentação de si é que é possível automaticamente associar dois corpos humanos próximos à violência. “Aparta que é briga!”.

É por isso que a imagem no livro infantil alemão carrega uma potência educadora. Como tal, traz uma violentação desse estado de coisas, mas uma violentação em outro sentido: rompe com a cascata imagética de clichês, convida cognitivamente ao exercício do discernir. É uma imagem que transborda outros sentidos e afecções. Não encontra nas imagens clichês da memória coletiva, impregnada pela moralidade burguesa, similaridade. É uma imagem, com o perdão do trocadilho, prenhe de sentido e de possíveis.

Daí os adultos vitimizados por uma sociedade da estase-extasê do olhar, onde o excesso de imagens conduz à cegueira, serem os verdadeiros traumatizados pelo sexo presente na imagem. Um exemplo: os alunos da Uniban, que hostilizaram a aluna com o vestido curto. Um olhar escotomizado. E olhe o leitor, uma imagem quase cristã, que remete ao sexo como função reprodutiva. Fato que faria muita criança por aí rir a valer.

PS: O autor do artigo é Dr. Em psicologia e prefere permanecer anônimo

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